Como Tocar Música Renascentista no Violão: Guia de Guitarra de 4 Ordens
A Geometria da Dança: A Guitarra Renascentista e o Despertar do Violão
Enquanto o alaúde (Lição Anterior) dominava a polifonia complexa com suas inúmeras cordas e formato de pera, a Guitarra Renascentista apresentava uma proposta radicalmente diferente: simplicidade, clareza e uma silhueta que antecipava o design icônico do violão atual. Com apenas quatro ordens de cordas, este pequeno instrumento foi o responsável por popularizar a música instrumental na França, na Espanha e na Itália, servindo de ponte entre a sofisticação da corte e a energia das ruas.
1. Anatomia e Design: O Nascimento do “Oito”
A guitarra renascentista é visualmente distinta de qualquer outro instrumento da época. Ela é pequena, quase do tamanho de um ukulele barítono moderno, mas sua construção revela uma engenharia acústica refinada.
O Corpo e o Fundo Plano
Diferente do dorso abaulado do alaúde ou do oud, a guitarra renascentista possui um fundo plano (ou levemente curvado para fora).
- A Silhueta: As curvas laterais formam um “oito” menos acentuado que o do violão moderno, com uma cintura mais larga e ombros mais estreitos.
- As Laterais (Eclisses): São rasas, o que limita o volume de ar interno, resultando em um som projetado, direto e com menos sustentação de graves que o alaúde, ideal para ritmos rápidos e dançantes.
A Rosácea de Pergaminho
Uma das características mais belas deste instrumento é a sua roseta.
- O Filtro Sonoro: Em vez de um buraco aberto, a boca da guitarra é coberta por uma intrincada talha em camadas de madeira ou pergaminho, muitas vezes lembrando o design de janelas góticas. Isso filtra as frequências agudas, dando ao instrumento um timbre “aveludado” e contido, perfeito para acompanhamento vocal.
Trastes de Tripa Amarrada
Assim como o alaúde, os trastes não eram de metal, mas de tripa de carneiro.
- Afinação Móvel: O músico amarrava os trastes ao redor do braço com nós duplos. Isso permitia que, se uma peça estivesse em uma tonalidade “difícil”, o músico pudesse mover o traste alguns milímetros para ajustar a entonação perfeita — uma flexibilidade que perdemos com os trastes de metal fixos.
2. Cordas e Cursos: O Poder das Quatro Ordens
A guitarra renascentista não usava seis cordas simples, mas sim quatro ordens (pares de cordas).
- Configuração (4 ordens): A corda mais aguda (chanterelle) era geralmente simples, enquanto as outras três eram duplas, afinadas em uníssono ou oitavas. Isso totalizava 7 cordas.
- Afinação (G – C – E – A): Esta afinação é idêntica às quatro cordas mais agudas do violão moderno (Ré – Sol – Si – Mi), mas transpostas uma quarta acima.
- O Brilho Coral: O uso de cordas duplas cria um efeito de “coro” natural. Como as duas cordas de um par nunca são perfeitamente idênticas na vibração, elas geram um batimento acústico que dá à guitarra um som rico e cintilante, compensando seu tamanho reduzido.
3. Técnica: O Duelo entre o Punteado e o Rasgueado
Aqui reside a verdadeira revolução da guitarra renascentista. Ela foi o primeiro instrumento a codificar as duas formas principais de tocar que definem o violão até hoje.
O Punteado (Dedilhado)
Inspirado na técnica do alaúde, o punteado consiste em tocar as cordas individualmente para criar polifonia.
- A Técnica: Usa-se principalmente a polpa dos dedos (sem unhas). É a técnica usada para tocar as complexas fantasias e transcrições de obras vocais.
O Rasgueado (Batido)
Diferente do alaúde, a guitarra era o instrumento por excelência do rasgueado.
- O Ritmo: Consiste em golpear todas as cordas com movimentos para cima e para baixo usando as costas das unhas ou os dedos. Esta técnica era usada para as danças populares como a Pavana ou a Gallarda, dando à guitarra uma função quase percussiva. Foi aqui que nasceu o “suingue” que mais tarde influenciaria o flamenco e a música latina.
4. Compositores e o “Livro de Cifras”
A guitarra renascentista foi abençoada por compositores que viam nela um potencial artístico imenso.
- Adrian Le Roy (França): Foi o grande editor e compositor parisiense que transformou a guitarra em um item de moda na corte francesa. Suas suítes de dança são modelos de elegância e simplicidade.
- Alonso Mudarra (Espanha): Em 1546, ele publicou os Tres Libros de Música en Cifras para Vihuela, que continham peças especificamente para a guitarra de quatro ordens. Mudarra provou que, mesmo com poucas cordas, a guitarra poderia soar tão profunda e intelectual quanto o alaúde.
5. Sabedoria Aplicada: O que o Violonista aprende com a Guitarra Renascentista?
Estudar este repertório antigo limpa e organiza a sua técnica moderna:
- Economia de Meios (Lição 5): Com apenas quatro ordens, você não pode “esconder” erros em acordes gigantes. Cada nota importa. Isso ensina o violonista a valorizar a clareza da melodia.
- Desenvolvimento Rítmico (Lição 8): O rasgueado renascentista exige um controle de pulso muito firme. Praticar essas danças ajuda a melhorar sua precisão rítmica em peças modernas.
- Transposição Mental: Ao tocar o repertório de guitarra renascentista no seu violão moderno (usando as cordas 4, 3, 2 e 1), você desenvolve uma agilidade mental de transposição que será útil em toda a sua carreira.
Resumo da Lição: A Pequena Gigante
A Guitarra Renascentista foi o instrumento que “democratizou” a música de cordas na Europa. Ela era mais barata que o alaúde, mais fácil de afinar e capaz de transitar entre o salão nobre e a festa na praça. Ela é a prova de que a grandeza musical não depende do número de cordas, mas da clareza da intenção.
Como a “Mãe do Violão Moderno”, ela nos ensina que a nossa estrutura física de “oito” foi desenhada para a dança, para o ritmo e para a canção íntima.
O Desafio do Renascentista (Experimento Sensorial)
Para sentir a alma da Guitarra Renascentista no seu violão:
- Ouça a peça “Fantasia para Guitarra” de Alonso Mudarra (recomendo a versão de Ariel Abramovich ou Hopkinson Smith).
- No seu violão, use apenas as cordas D – G – B – E (4ª, 3ª, 2ª e 1ª). Ignore as cordas graves (Mi e Lá).
- Tente tocar uma melodia simples apenas nessas quatro cordas, alternando entre um dedilhado suave e um pequeno “rasgueado” com o dedo indicador nas passagens de acorde. Sinta como o violão se torna um instrumento mais “leve” e ágil.


