Da Vihuela à Guitarra de Concerto: O Abismo Estético entre o Renascimento e Tárrega
Muitos estudantes cometem o erro de aplicar a mesma técnica “romântica” em todo o repertório do violão. No entanto, interpretar uma peça de John Dowland (1563-1626) com o mesmo vibrato e legato de uma peça de Francisco Tárrega (1852-1909) é como tentar ler um poema elisabetano com um sotaque de ópera italiana do século XIX.
Embora o instrumento seja o “mesmo” (em essência), a filosofia sonora mudou radicalmente. Vamos desvendar como separar essas duas linguagens no seu estudo diário.
1. A Articulação: A Fala contra o Canto
A maior diferença reside no conceito de fraseado.
O Renascimento: A Retórica da Fala
No Renascimento, a música é serva da palavra, mesmo em peças instrumentais. A estética prega a clarté (clareza).
- Separação de Notas: Ao tocar Dowland ou Francesco da Milano, as notas devem ter “ar” entre elas. Imagine que cada nota é uma sílaba pronunciada. O excesso de legato borra as vozes do contraponto.
- Contraponto: A prioridade é a independência das vozes. O ouvinte deve ser capaz de seguir a linha do tenor e do soprano simultaneamente.
Tárrega: O Bel Canto no Violão
Tárrega viveu o auge do romantismo espanhol. Sua música imita a voz humana operística.
- O Legato Constante: O objetivo é um fluxo sonoro ininterrupto.
- Portamentos: Tárrega utiliza o deslize do dedo (glissando) para conectar notas distantes, mimetizando o suspiro ou a emoção da voz. No Renascimento, isso seria considerado um erro técnico grosseiro ou uma vulgaridade estética.
2. A Revolução da Mão Direita: Thumb-in vs. Apoio
A forma como você ataca a corda define a “época” do seu som.
A Técnica Histórica (Thumb-in)
Até o final do século XVI, a técnica predominante no alaúde e na vihuela posicionava o polegar por dentro da mão (abaixo do dedo indicador).
- O Efeito: Isso gera um ataque extremamente suave e facilita a alternância rítmica (p-i-p-i) para escalas rápidas (passaggi). O timbre resultante é percussivo, leve e rico em harmônicos agudos, sem a “batida” pesada do violão moderno.
- Toque sem Apoiar: No Renascimento, o “toque apoiado” praticamente não existia. As cordas eram feridas “tirando”, o que preserva a ressonância das cordas vizinhas, essencial para a polifonia.
A Escola de Tárrega e o Toque Apoiado
Tárrega, influenciado pela necessidade de projetar o som em salas maiores, popularizou o toque apoiado (apoyando).
- Volume e Corpo: Ao apoiar o dedo na corda seguinte após o ataque, o músico obtém um som mais encorpado, com graves profundos e agudos redondos. É a estética da “guitarra de concerto” que domina até hoje.
3. O Tempo: O Pulso Humano vs. a Emoção Elástica
O Tactus Renascentista
A música renascentista é regida pelo tactus, uma pulsação constante baseada no batimento cardíaco ou na respiração tranquila.
- Rubato Contido: Flutuações de tempo são raras e extremamente sutis. A expressividade não vem de “esticar” o compasso, mas da forma como você articula as notas dentro do tempo fixo.
O Rubato Romântico de Tárrega
Na música de Tárrega (pense em Capricho Árabe), o tempo é elástico. O músico “rouba” tempo de uma nota para dar a outra, criando uma tensão emocional. O uso do metrônomo aqui é apenas referencial; a performance exige uma oscilação dramática que guia o sentimento do ouvinte.
4. Ornamentação: Glosas vs. Brilho Moderno
As Diminuições (Glosas)
No Renascimento, o intérprete era um improvisador. A ornamentação consistia em diminuições: pegar uma nota longa e dividi-la em várias notas rápidas de passagem. Isso era necessário porque o som do alaúde decai rápido; as notas rápidas mantêm a “ilusão” de sustentação.
Ornamentos de Tárrega
Aqui, os ornamentos (trilos, mordentes, grupetos) seguem a tradição do século XIX: são rápidos, brilhantes e muitas vezes servem para enfatizar o virtuosismo ou a delicadeza melódica. Eles são decorativos, enquanto no Renascimento eram estruturais.
5. A Cor do Som: Vibrato e Timbre
A Pureza Renascentista
No violão moderno, tendemos a usar vibrato em quase todas as notas longas. No Renascimento, o vibrato era um ornamento específico (chamado de tremolo ou flattement) usado raramente para destacar uma nota especial. O som padrão deve ser puro, “estático” e cristalino.
- Paleta de Cores: A variação tímbrica (perto da ponte ou do braço) é usada de forma muito discreta.
A Paleta Cromática de Tárrega
Tárrega explorou o violão como uma “orquestra em miniatura”. Ele incentivava o uso de cores contrastantes: tocar sul ponticello (perto da ponte) para um som metálico e incisivo, ou sul tasto (sobre o braço) para um som doce e aveludado. O vibrato é largo, expressivo e quase onipresente, como o de um violoncelista romântico.
6. Checklist para o Estudante no Kakuno Academy
Ao abrir uma partitura de John Dowland:
- Desligue o Vibrato: Deixe a corda vibrar naturalmente.
- Toque sem Apoiar: Use o toque “tirado” para clareza polifônica.
- Articule: Não ligue todas as notas; deixe pequenos silêncios entre as frases.
- Respeite o Tactus: Mantenha a pulsação firme.
Ao abrir uma partitura de Tárrega:
- Cante: Use o vibrato para dar vida às melodias.
- Use o Apoio: Busque o som encorpado e profundo.
- Explore o Rubato: Deixe a música respirar de acordo com a emoção.
- Portamentos: Não tenha medo de deslizar suavemente entre as posições (com bom gosto!).
Conclusão
Entender essas diferenças transforma o músico de um simples “executor de notas” em um verdadeiro artista. No Kakuno Guitar Academy, acreditamos que a versatilidade estilística é o que torna o violonista completo. Ao respeitar as ferramentas de cada época, você honra o passado e enriquece o seu presente musical.