Abaixo, apresento um estudo detalhado dividido por eras evolutivas.
1. A Pré-História: Cordofones e Alaúdes
A origem do violão não é um ponto único, mas uma convergência.
- Ancestrais Distantes: Instrumentos como a Kithara grega e o Oud árabe.
- A Influência Moura: Quando os mouros invadiram a Península Ibérica no século VIII, trouxeram o Oud. Na Europa, esse instrumento evoluiu para o alaúde, que dominou a Renascença.
- A Vihuela: No século XVI, na Espanha, a elite preferia a Vihuela de Mano (com corpo em formato de oito, como o violão atual), enquanto o povo usava o alaúde.
2. O Barroco e a Quinta Corda (Séculos XVII – XVIII)
Nesta fase, o instrumento era menor e conhecido como Violão Barroco.
- Inovação: Ele possuía 5 ordens de cordas (geralmente cordas duplas).
- O Estilo: A técnica misturava o rasgueado (batido) com o punteado (dedilhado).
- Figura Chave: Gaspar Sanz, que escreveu um dos primeiros manuais de instrução para o instrumento, consolidando sua popularidade na Espanha.
3. A Revolução do Século XIX: O Nascimento do Violão Moderno
Este é o período mais crítico. O violão quase desapareceu por ser “baixo demais” para as grandes salas de concerto, até que dois homens mudaram tudo:
A Sexta Corda e a Anatomia
Por volta de 1790, a sexta corda (o Mi grave) foi adicionada e as cordas duplas foram substituídas por cordas simples. Porém, o instrumento ainda era pequeno e pouco potente.
Antonio de Torres: O “Stradivarius” do Violão
Em meados de 1850, o luthier espanhol Antonio de Torres Jurado revolucionou o design:
- Aumentou o corpo do instrumento para maior ressonância.
- Aperfeiçoou o “Lequio” (Fan Bracing): Travessas de madeira coladas sob o tampo que distribuem a vibração e reforçam a estrutura.
- Padronizou o comprimento da escala (650 mm).
- Francisco Tárrega: Conhecido como o “Sarasate do violão”, ele criou a postura moderna e técnicas essenciais (como o apoio do polegar e o uso das unhas).
- Andrés Segovia: O maior embaixador da história. Ele tirou o violão das tabernas e o colocou nos palcos das maiores filarmônicas do mundo. Segovia convenceu compositores não-violonistas (como Manuel de Falla e Villa-Lobos) a escrever para o instrumento.
- O Advento do Nylon: Durante a Segunda Guerra Mundial, o fornecimento de tripa de animal (usada nas cordas) escasseou. Em 1947, a marca Augustine, com ajuda de Segovia, lançou as primeiras cordas de nylon, garantindo estabilidade de afinação e brilho sonoro.
- Heitor Villa-Lobos: Seus 12 Estudos e 5 Prelúdios são considerados o “Novo Testamento” do violão clássico, explorando as idiossincrasias do instrumento como ninguém.
- Violão de Concerto vs. Popular: No Brasil, a fronteira é fluida. Nomes como Dilermando Reis e Baden Powell elevaram o violão a um nível de virtuosismo que une o rigor erudito à alma brasileira.
Nota: Praticamente todo violão clássico moderno fabricado hoje segue os moldes estabelecidos por Torres.
4. O Século XX: A Era de Ouro e a Legitimidade
Com o instrumento fisicamente pronto, faltava o repertório e o prestígio.
5. O Violão no Brasil: Uma Identidade Única
O Brasil é uma das “pátrias espirituais” do violão.
Resumo Técnico da Evolução
|
Época |
Instrumento |
Cordas |
Característica Principal |
|---|---|---|---|
|
Renascença |
Vihuela / Alaúde |
6 ordens / Várias |
Uso em cortes reais. |
|
Barroco |
Violão Barroco |
5 ordens duplas |
Popularização e técnica de rasgueado. |
|
Clássico |
Violão Romântico |
6 cordas simples |
Instrumento menor, som focado. |
|
Moderno |
Violão de Torres |
6 cordas (Nylon) |
Corpo maior, leque harmônico, projeção para concertos. |
O violão clássico hoje continua evoluindo com materiais como fibra de carbono e tampos de treliça (lattice) para ganhar ainda mais volume, mas a alma do instrumento permanece na intimidade e na capacidade de fazer “uma orquestra inteira com apenas seis cordas”.

